Perfil

Literatura, com o Defensor Público Elizandro Todeschini

A presidente da ADPERGS, Juliana Lavigne entrevista o Defensor Público Elizandro Todeschini em sua Comarca, em Marau.

Na Série Perfil da RevistADPERGS deste mês, o entrevistado é o Defensor Público de Marau, Elizandro Todeschini. Além de atuar na Defensoria Pública desde 2007, Elizandro descobriu-se também na escrita. Atualmente, possui uma obra publicada e outra que será lançada no próximo ano.

Sua história como escritor inicia em 2014, em uma viagem de turismo ao deserto do Atacama com os amigos, quando o Defensor sequer sonhava tornar a escrita mais do que um hobby. O que mais chamou atenção do grupo durante o passeio foi a grande quantidade de pessoas que faziam trilhas e acampavam pelo local. No ano seguinte, passaram a fazer viagens pela América Latina e a praticar este tipo de atividade, dando continuidade até hoje. Para além do exercício físico, Elizandro ressalta que a melhor experiência é a integração com o grupo, a cultura local e a natureza.

Apesar de não terem objetivos de participar de maratonas, por exemplo, o grupo também realiza trilhas mais curtas para melhora do preparo físico. Mas é necessário sempre aceitar este desafio com a consciência de que não é nada fácil. Frio, racionamento de alimentos e bolhas fazem parte de cerca de 10 dias de caminhada que geralmente um trilheiro encontra pela frente. Este é um exercício e uma reflexão que podem ser levados para a vida de uma maneira geral. Segundo o Defensor, “não são todos os problemas que devem te tirar o foco e a tranquilidade: você precisa analisar a situação, ver o que de fato é um problema e resolvê-lo com tranquilidade. A negatividade só te coloca para baixo, e isso acaba aparecendo muito em provas físicas como estas”.

As trilhas contribuíram para que a vida de escritor de Elizandro iniciasse. Seu primeiro livro, “De Volta ao Pátio” (confira a sinopse clicando aqui - irá constar nas dicas de leitura), foi pensado depois de uma viagem com o grupo para o Peru em 2016. A história fictícia é situada em Nevado Salkantay, com a trilha seguindo até a cidade de Machu Picchu. Apesar da ficcionalidade da história, o personagem principal apresenta problemas pessoais marcantes, que acabam levando-o para esta caminhada, onde consegue analisar suas dúvidas, dificuldades e desejos.

O processo de escrita ainda contou com uma drama pessoal, que foi a doença e morte de seu pai. Ao invés de deixar a escrita de lado, Elizandro utilizou-se dela como uma válvula de escape para enfrentar o momento que ele e sua família precisaram passar. “Eu utilizei a escrita para canalizar a dor que eu sentia, como se fosse uma espécie de terapia. A literatura te proporciona isso, seja como leitor ou escritor”, completa.

Sem objetivos de retorno financeiro relacionado à publicação de sua obra, o Defensor conta sobre a vitória alcançada com o lançamento. “Esta foi minha primeira aventura no campo da escrita, mas, independente do alcance do livro, representa uma vitória pessoal muito grande, pois já atingiu seu objetivo no momento em que ele foi escrito. Eu consegui uma paz muito grande ao fazê-lo. Só por isso, já valeu a pena”.

A literatura, assim como outras formas de arte, pode ser considerada uma forma de terapia, como citou Elizandro. Para as Defensoras e Defensores Públicos, isto auxilia no dia a dia, deixando-o mais leve. Muitos, inclusive, passam a realizar estas atividades devido à grande carga profissional e à essência do próprio trabalho como Defensor Público. Para ele, a realidade da Defensoria Pública machuca. “Por mais que o Defensor se sinta vocacionado para a profissão, as situações não deixam de machucar. A literatura tem essa tarefa de alento: sempre que você lê uma história marcante ou escreve algo em que canaliza o que viveu, isso conforta”, finaliza.

Casos que marcaram a vida do Defensor

Os casos que emocionam e marcam um Defensor Público não são poucos. Muitas vezes, é difícil separar o lado pessoal do profissional, sem se deixar envolver. Em entrevista, o Defensor Público lembra de dois destes casos. Um no ano passado, sobre a mudança de nome de uma das assistidas da Comarca. O caso chamou a atenção da comunidade, principalmente por Marau ser uma cidade pequena. Ele conta que a assistida queria a alteração de nome, sem a mudança de sexo, e que o Ministério Público pediu para que ela comprovasse se realmente sentia-se mulher. Diante disto, a Defensoria reuniu fotografias em que, desde criança, ela demonstrava este desejo. Desta forma, a Defensoria conseguiu que ela tivesse seu nome alterado sem a mudança de sexo.

O segundo caso, é também relacionado ao nome de uma assistida. Desta vez, um nome que a fazia sofrer bullying na escola, no trabalho e todas as vezes que mostrava um documento que a identificasse. A resolução do caso era simples, mas, na vida dela, representava um antes e depois imensurável. Para Elizandro, isto é o que realmente importa: fazer a diferença na vida do assistido.

O Defensor ainda afirma que estes casos mudam tanto a vida de quem atende quanto a vida do assistido; eles deixam marcas e lembranças de uma maneira pessoal. “Essas perversidades que a sociedade impõe e que nós conseguimos mudar, com providências simples, do ponto de vista do nosso trabalho, mas que são basilares à quem bate à nossa porta, é gratificante. Estes casos alteram todo o sentimento de uma pessoa, quando ela consegue o que buscava conosco na Defensoria. É extremamente importante dar a devida valorização a este tipo de demanda individual”, afirma.

Ao fim da entrevista, ele cita uma frase de John Donne citada por Hemingway, para explicar toda a satisfação e apego de forma pessoal que o Defensor Público tem ao seu trabalho: “(...) também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à Humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”. A frase significa que, se alguém perde ou sofre, para nós, seres humanos, isto nos diminui. Por último, ele nos traz a seguinte reflexão: “Nós precisamos nos importar com as coisas da vida e com as coisas que atingem todas as pessoas que convivem neste planeta. É assim o trabalho do Defensor Público”.

O livro intitulado “De volta ao Pátio” está disponível no acervo da ADPERGS e foi autografado pelo escritor e Defensor Público

Novos rumos na escrita

Apesar da correria do dia a dia, Elizandro afirma que não abandonou a escrita; depois da experiência com seu primeiro livro, a literatura passou a fazer grande parte de sua vida.  

Atualmente, o novo livro do Defensor, “Nenhuma Eternidade”, encontra-se em fase de finalização. Também com uma temática ficcional, o livro é ambientado, desta vez, na Patagônia. A ideia sobre o enredo se deu, assim como em sua primeira obra, durante uma trilha realizada pelo grupo em 2017, em Torres del Paine, na Patagônia.

Segundo o autor, apesar deste livro ser mais “bagunçado” do ponto de vista da passagem do tempo - não-linear, com seu personagem principal lembrando o passado em diversos momentos e misturando-se aos acontecimentos atuais -, ele é mais denso em sua história e carrega mais dramaticidade em um período mais curto de tempo.

Rua General Andrade Neves, 90, Sala 81
Centro – CEP 90010-210
Porto Alegre – RS
Tel.: (51) 3224-6282
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
www.adpergs.org.br