Saúde

Antes do esgotamento total, preste bem atenção aos sinais

A filha estava no hospital ganhando bebê. Enquanto isso, ela - a avó, continuava lendo e escrevendo, sentada no corredor da instituição médica. A pilha de processos que a Defensora Pública do Estado do Rio Grande do Sul tinha para dar conta não concedeu trégua nem durante o parto de seu neto. O primeiro resultado deste ritmo de trabalho foi um aneurisma. Depois, veio a certeza de que a qualidade de vida havia desaparecido sem ela saber ao certo quando e como. Aposentada, seu relato serve de alerta.

No início: cansaço, irritação, dores no corpo, falta de tempo para lazer e para si pareciam apenas consequências da correria do dia a dia. O alerta serve para qualquer profissional, mas aqui estamos nos referindo especialmente a quem tem carimbado o estigma de cuidar e defender o outro, de amparar o vulnerável, e muitas vezes sequer se dá conta do quanto está desprotegido, sem ânimo, carente de esporte, de rotina sadia e de boa alimentação.

Outra, atuando na área criminal, uma noite notou que não sabia mais dormir. Chegou a sofrer um acidente de automóvel. “Meu cérebro viu que ocorreria um acidente, mas eu não consegui agir, ter reação”, tenta explicar. A sensação já vinha acompanhando esta Defensora Pública gaúcha que deixava a Comarca e levava consigo o ofício, inclusive aos finais de semana. A mente dela passou a apresentar vácuos, os chamados ‘deu um branco’. Em frente à tela do computador, não raras vezes quis digitar e o cérebro não atinou a dar o comando para as mãos.

Uma não sabia da história da outra, mas têm conhecimento que vários colegas estão seguindo o mesmo caminho - sem perceber. Elas foram previamente diagnosticadas com depressão, crise de ansiedade, estresse, entre outros, até descobrirem que era uma síndrome. “Estresse é desencadeado por fatores como estar face a face com abusadores, psicóticos, casos de negligência severa e situações de ameaça ao Defensor. A vulnerabilidade e a impotência desencadeiam a Síndrome de Burnout, que não é e nunca foi depressão”, ensina a psicóloga Angela Figueiredo, especialista na doença pouco comentada entre os Defensores Públicos. A cultura do ‘eu aguento tudo’, diz Angela, precisa ser desconstruída.

União e acolhimento no cuidado com o outro

Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Síndrome de Burnout é um transtorno ocupacional reconhecido pelo CID 10 Z73.0, conforme a Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) da entidade. Ou seja, trata-se de um excesso de trabalho que gera consequências físicas, imunológicas, psíquicas e emocionais. “Desenvolvi uma doença autoimune que pode cegar. Minhas pernas tinham movimentos involuntários como descargas energéticas da tensão, entre tantas outras doenças que vieram com o Burnout”, relata uma terceira colega da Defensoria Pública gaúcha.

Reconhecida no meio jurídico, Angela conta que quando juízes, procuradores e policiais civis, por exemplo, passam “pelo m-e-sm- o problema”, grifa a psicóloga, existe um serviço especial para tratar e apoiar estes profissionais. Para ela, está faltando “a união que eu percebo no judiciário: mexeu com um, mexeu com todos. Este amparo classista é fundamental para a diminuição de casos de Burnout”.

Pesquisas brasileiras e internacionais corroboram e salientam que o silêncio em relação ao CID 10 Z73.0 não traz benefícios. Médicos e psicólogos creditam o tabu ao desconhecimento, semelhante ao preconceito que havia com a depressão há alguns anos. “O tamanho do quanto ainda é difícil compartilhar essas histórias (por expor a intimidade de cada uma) é proporcional ao gigantismo da coragem e da vontade destas mulheres em prevenir toda uma categoria de Defensores Públicos”, elogia a vice-presidente da ADPERGS, Bárbara Sartori.

Grupo de apoio e prevenção à saúde

A Diretoria da ADPERGS tem como compromisso proporcionar mais qualidade de vida para seus sócios. Diante de tantos relatos de estresse, depressão, fadiga, alteração drástica no apetite, obesidade, falta de ânimo, longas jornadas de trabalho etc., algumas Defensoras associadas se reuniram e criaram o Grupo de Apoio e Prevenção à Saúde. Na sede da Associação, as reuniões são para conversas francas em meio ao vai-e-vem de um mate, desabafos, cafezinhos, acolhimento, biscoitos, união, afeto e muitas ideias.

“Eu também desenvolvi um aneurisma. E não faltou quem me rotulasse de louca, ainda mais depois de eu bater o carro”, recordou uma das Defensoras durante encontro do grupo. A cada depoimento, o esgotamento total (Burnout) adverte que pode deixar sequelas no cérebro para o resto da vida. Elas tiveram que aprender a conviver com a síndrome. Por isso, entre os objetivos do Grupo de Apoio e Prevenção à Saúde estão prioritariamente informar para prevenir e auxiliar na procura por tratamento com possíveis convênios.

“Algumas tiveram Burnout, outras quase desenvolveram a doença. O que queremos é que homens e mulheres estejam cientes deste tema para ajudar, inclusive, alguma pessoa que busque atendimento na Defensoria. Afinal, o Burnout atingiu níveis que têm causado preocupação até para a Organização Mundial de Saúde”, contextualiza Bárbara.
A presidente Juliana Coelho de Lavigne anuncia que os projetos estão tomando forma. “Um deles está aqui: uma reportagem sobre essa doença, sobre os sintomas pré e pós, métodos de acolhimento, maneiras de prevenção, as principais consequências físicas e psicológicas, os cuidados no retorno do Defensor ao trabalho, como os amigos e familiares podem ajudar, e, sobretudo, como cada um de nós pode cuidar do colega e aumentar a nossa união como categoria que zela por desconhecidos”, enumera.

Burnout

O termo “to burn out” em inglês significa queimar. Imagine um cérebro se autoqueimando sem parar. A pessoa acometida pela síndrome sente uma pressão na cabeça e não consegue parar, desligar, descansar. Homens e mulheres podem sofrer com este diagnóstico. Atualmente, o perfil com mais propensão a desenvolver a Síndrome de Burnout é o de mulheres com mais de 30 anos, sedentárias, com filhos, sem lazer e/ou hobbie definido, e com excesso de trabalho nos aspectos carga, tempo e responsabilidade.
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